A natureza dos sonhos

A sombra da árvore se espalhava como uma doce lembrança sobre a grama úmida. Orvalho fresco de uma noite sem chuva. Memórias de estrelas ainda recentes na alma dos observadores. A plenitude era uma questão de perspectiva das árvores.

A natureza encontrava seu caminho pelo concreto bruto. Espalhava suas raízes quebrando o cimento em caminhos sinuosos, lentos e teimisos. Nenhuma verdade é inquebrável, assim como nenhuma mentira é eterna.

O vento balançava as copas fazendo uma dança alegre e tímida. O cheiro de vida se espalhava pelo ar. Era possível redescobrir a fé só de sentir o vento levando embora o cheiro da cidade. Nenhum ser humano consegue a delicadeza do frescor da manhã. Como uma donzela ao despertar de sonhos ainda inocentes, mas cheios de esperanças.

Mas os sonhos não são as árvores, nem suas raízes. Sonhos são concretos. São plantados em solo fértil e cimentados para jamais escaparem. E assim como o asfalto, são certezas erosadas pelo tempo. Deus são as árvores. Brotam pelo vento, fortificam-se pela terra e lentamente levam os sonhos humanos embora.

Cidades feitas de sonhos são túmulos de gente esquecida. Estátuas que diluem a paisagem do grande cenário da vida. Ferro, fogo, areia e cimento contra o vento, a chuva, o sol e o esquecimento. Haveria um tempo em que o mundo seria melhor, mas não ainda.

Haveria um tempo em que a paz é apenas um olhar do horizonte. Sem tijolos dourados dessa vez. 

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Gosto

downloadGosto da sensibilidade rara, o olhar cauteloso e o toque suave da compreensão.

Gosto das metáforas, do conteúdo robusto e das palavras modestas, porém elegantes.

Gosto das crônicas vivas, das poesias pequenas, das rimas sem ostentação.

Gosto de caminhar o olhar, em linhas retas, linhas tortas, linhas tracejadas…

Gosto do orgânico mais do que gosto do artificial.

Gosto do limiar das palavras, expectativa da voz, da vírgula, do ponto final que se torna reticências.

Gosto do que me liberta e não do que me priva, mesmo que a libertação seja uma gaiola com pequenos pássaros cantarolando a imensidão de suas asas nos limites da imaginação.

Gosto de ler tanto quanto gosto de escrever, mas escrevo pouco por vergonha de sentir.

Gosto do peculiar, do excêntrico, do original, ao mesmo tempo que gosto da memória, das versões e das diferentes leituras entre a semiótica e a gramática.

Gosto das cores escritas, dos desenhos falados, das histórias infantis criadas por adultos que esqueceram de crescer.

Gosto da profundidade do absurdo, da leveza do profundo e da raridade cotidiana.

Gosto de ler o horóscopo antes da economia, mas prefiro as bulas do que os sonetos clássicos.

Gosto das contradições, dos paradoxos e das conclusões individuais, mesmo que a minha seja igual a de todo mundo.

Gosto do perfeito equilíbrio entre o ser e o nada, mas também gosto do tempo perdido em um leitor digital.

Gosto da morfologia das tags tanto quanto gosto da interpretação dos signos.

Gosto das estrelas tanto quanto gosto da lama, mas prefiro os salões entre o céu e do inferno em seu banquete matrimonial.

Gosto do popular mais do que o erudito e isso não faz de mim uma pessoa ruim.

Gosto do cheiro, do gosto e da textura dos lábios declamando palavras impronunciáveis.

Gosto de tudo, separo o que me agrada, declaro o que me apaixono e sussurro apenas o que amo.

Gosto mais do sabor do que a estética, mas como meu gozo se regojiza ao equilíbrio do texto, contexto e conteúdo.

Gosto do papel tanto quanto gosto do eletrônico, mas tenho preferência pela inteligência do que pela força.

Gosto do grafite tanto quanto gosto do giz branco.

Gosto das vogais tanto quanto as consoantes, mas sou consumida pelos pontos finais.

Gosto do breve, mas respeito os romances.

E acima de tudo, gosto das palavras inteiras, não meias verdades.

Gosto de escrever tanto quanto gosto de sentir.

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Insônia

Uma noite qualquer, sem motivos, sem razões, sem cura. Quando o medo vem em ondas de calafrios, a ansiedade em dores latejantes de cabeça e um mar revolto em angústia tola no estômago.

Todos dormem ao redor, menos eu.
Todos fortes ao redor, menos eu.
Todos calmos ao redor, menos eu.

Não há cura para o mal da loucura.
Existe razão para se deixar levar?
Existe razão para se deixar cair?

A insônia é a insanidade mostrando sua força.

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