Gosto

downloadGosto da sensibilidade rara, o olhar cauteloso e o toque suave da compreensão.

Gosto das metáforas, do conteúdo robusto e das palavras modestas, porém elegantes.

Gosto das crônicas vivas, das poesias pequenas, das rimas sem ostentação.

Gosto de caminhar o olhar, em linhas retas, linhas tortas, linhas tracejadas…

Gosto do orgânico mais do que gosto do artificial.

Gosto do limiar das palavras, expectativa da voz, da vírgula, do ponto final que se torna reticências.

Gosto do que me liberta e não do que me priva, mesmo que a libertação seja uma gaiola com pequenos pássaros cantarolando a imensidão de suas asas nos limites da imaginação.

Gosto de ler tanto quanto gosto de escrever, mas escrevo pouco por vergonha de sentir.

Gosto do peculiar, do excêntrico, do original, ao mesmo tempo que gosto da memória, das versões e das diferentes leituras entre a semiótica e a gramática.

Gosto das cores escritas, dos desenhos falados, das histórias infantis criadas por adultos que esqueceram de crescer.

Gosto da profundidade do absurdo, da leveza do profundo e da raridade cotidiana.

Gosto de ler o horóscopo antes da economia, mas prefiro as bulas do que os sonetos clássicos.

Gosto das contradições, dos paradoxos e das conclusões individuais, mesmo que a minha seja igual a de todo mundo.

Gosto do perfeito equilíbrio entre o ser e o nada, mas também gosto do tempo perdido em um leitor digital.

Gosto da morfologia das tags tanto quanto gosto da interpretação dos signos.

Gosto das estrelas tanto quanto gosto da lama, mas prefiro os salões entre o céu e do inferno em seu banquete matrimonial.

Gosto do popular mais do que o erudito e isso não faz de mim uma pessoa ruim.

Gosto do cheiro, do gosto e da textura dos lábios declamando palavras impronunciáveis.

Gosto de tudo, separo o que me agrada, declaro o que me apaixono e sussurro apenas o que amo.

Gosto mais do sabor do que a estética, mas como meu gozo se regojiza ao equilíbrio do texto, contexto e conteúdo.

Gosto do papel tanto quanto gosto do eletrônico, mas tenho preferência pela inteligência do que pela força.

Gosto do grafite tanto quanto gosto do giz branco.

Gosto das vogais tanto quanto as consoantes, mas sou consumida pelos pontos finais.

Gosto do breve, mas respeito os romances.

E acima de tudo, gosto das palavras inteiras, não meias verdades.

Gosto de escrever tanto quanto gosto de sentir.

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Sobre Andreza

Jornalista, tradutora, escritora, sonhadora, dona de casa sem uma casa, irmã caçula e péssima em encontrar uma harmonia com teclados de configurações diferentes. Gosta de ler em demasia, mas a miopia não ajuda. Gosta de escrever com moderação, as palavras precisam ser digeridas.
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