Benção de Oyá

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Havia um prenúncio de tempestade no céu. Sentia a pele quente, úmida, com um sopro de calor que nada se parecia com dias felizes. Muito pelo contrário, era uma sensação de falta de ar, de espaço, de tempo. Como se fechassem o céu e trancassem o ar puro para cima das nuvens.

Acendeu um cigarro e a primeira tragada queimou sua garganta. Na segunda, sentia queimar seus pulmões. Na terceira sentiu sua alma ser invadida por medo. Era como ser queimada por dentro, uma combustão causada por falta de lucidez, pensamentos embaralhados, sentimentos rodopiando como fumaça dançando sobre o fogo.

Bebeu água gelada e um tiro de gelo invadiu a testa. Sentiu a pontada enquanto jogava o cigarro quase inteiro na calçada. Não sentia o gosto, apenas uma lufada de ar quente que carregava seu corpo pela calçada.

Entrou no trianon às pressas. sentindo o rosto arder também. Até suas lágrimas eram fogo. A raiva eram labaredas que queimavam seu estômago. Achou um banco longe de tudo e sentou-se lá. Tentava respirar, mas o ar entrava estranho em seus pulmões. Queria se jogar de algo bem alto, mas resolveu se sentar embaixo de uma árvore.

Não demorou muito para as nuvens explodirem. Caiu uma chuva densa, morna, salgada. Olhou para o céu e sussurrou uma oração. As pessoas corriam para escapar da chuva. Ela permaneceu de olhos fechados, imóvel, sentindo a raiva se dissipar pela água.

Depois da chuva, sobrou o sofrimento. As cinzas de palavras malditas ainda corroía seus pensamentos. Apesar de flutuarem sobre a massa cinza, a dor ainda mostrava o poder das queimaduras.

Puxou o ar mais uma vez num suspiro sem esperanças e percebeu que o ar estava mais leve. Lembrou-se de um rosto amassado no travesseiro, o carinho de um olhar silencioso e abriu seus olhos ainda vermelhos.

Acendeu outro cigarro e deixou brasas ainda acesas dentro de si, mas essas queimavam em outra direção.

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Sobre Andreza

Jornalista, tradutora, escritora, sonhadora, dona de casa sem uma casa, irmã caçula e péssima em encontrar uma harmonia com teclados de configurações diferentes. Gosta de ler em demasia, mas a miopia não ajuda. Gosta de escrever com moderação, as palavras precisam ser digeridas.
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