Como se desfaz uma vida?

Já reparou quanta coisa você guarda em casa? E não venha me dizer que só guarda o essencial, pois 10 anos depois esse mesmo “essencial” ainda está lá, em algum canto esquecido da luz e da vida.

Guardamos tudo, caso um dia precise: boletos pagos, folhas de cheque, cartões postais, cartas, lembranças, amores, um pouco de sabedoria e um monte de coisinhas, que de tão inhas, você nem se lembra mais porque guardou.

Mas não pense que tudo isso é ruim, quando você vive de verdade, acaba reunindo essas pequenas memórias. Restos da vida que passou, alimento da memória no futuro e um pouco de saudade no coração. “Ah, na minha época!” – frase-chave de uma vida que passou, ou está passando (e muito bem, obrigada); é o bordão mais conhecido daqueles que param para olhar o passado.

O passado visto assim, nem parece tão distante. Aquele desenho que sua mãe guardou desde os seus seis aninhos – e que você nem mais reconhece se é um cavalo ou um moinho de vento – ainda parece vivo e pulsante quando você o reencontra no fundo da gaveta. A roupinha da formatura, o bilhetinho do primeiro amor, uma borrachinha com uma equação de matemática que se prendeu ao tempo. Cola pra sempre.

Tudo isso faz parte da construção de uma vida. Desfazer desses detalhes é desapegar do passado e isso nem sempre é feito com desenvoltura. Achamos que se jogarmos fora, poderemos perder algo grandioso. Uma oportunidade, uma necessidade, uma nova vida. Jogar fora o que há de precioso em sentimentos é um dos atos mais heroicos que já tive a oportunidade de realizar.

Você joga fora o seu passado, mas de forma consciente, ativa, concisa. Preciso ou não preciso? Sim ou não? E o lixo lá, de boca aberta, te esperando. Joga fora como quem joga fora uma vida. É assim que se define o sentimento? A limpeza das gavetas faz uma limpa também na memória. Lembramos mais uma vez e deixamos de lado aquilo que já nos emocionou uma vez. Se não emocionar de novo, a regra é clara: lixo. Se emocionar, quem sabe ano que vem?

Anúncios

Sobre Andreza

Jornalista, tradutora, escritora, sonhadora, dona de casa sem uma casa, irmã caçula e péssima em encontrar uma harmonia com teclados de configurações diferentes. Gosta de ler em demasia, mas a miopia não ajuda. Gosta de escrever com moderação, as palavras precisam ser digeridas.
Esse post foi publicado em crônica, Desabafo. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s