Alegria de colher

O céu era cinza amarelado, como se os deuses quisessem mostrar que existia o sol por trás das nuvens. Mas isso não importava mais. Sentia frio e os dedos das mãos ardiam numa onda gelada que ia das pontas das unhas para todo o antebraço. O vento lambia a face como labaredas se entregam na madeira em uma fogueira recém-acesa, e na falta de algo para aquecer, o vento era sua única companheira.

As ruas estavam fechadas, lotadas de carros, ônibus e táxis. Só as motos conseguiam andar na avenida como cobras açoitadas em noite de caça. E lá ela ia com passos regulares e cabeça baixa.

Era o dia mais feliz da sua vida. Pena que o universo não concordava e deixava o dia com um ar misto de melancólica doente e vazio setentrional. Seria assim a vida?

Fechou-se em seu casaco e ignorou o sorriso que insistia em avisar o mundo sobre a sua felicidade. A alegria era só sua e ninguém poderia roubá-la.

Deveria ser assim: a alegria quando surge, borboleteando no estômago, mareando os olhos e palpitando o peito, deveria ser colocada em potinhos hermeticamente fechados para que todas as sensações durassem para sempre. Ou pelo menos que o prazo de validade pudesse ser estendido.

Mas a vida real não permite que a alegria dure muito. As calçadas exalavam o cheiro dos dias passados, as ruas assobiavam o som do caos e os prédios se dobravam com a curva do vazio. Com todos e para todos. A justiça universal.

Ela, enfim, chega na porta de casa. O portão bate com o som da prisão. O vento é deixado pra fora junto com todo o resto do dia. Enfim, a alegria é só dela.

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Sobre Andreza

Jornalista, tradutora, escritora, sonhadora, dona de casa sem uma casa, irmã caçula e péssima em encontrar uma harmonia com teclados de configurações diferentes. Gosta de ler em demasia, mas a miopia não ajuda. Gosta de escrever com moderação, as palavras precisam ser digeridas.
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