O tempo, a solidão e o eu.

Os anos se passaram como um sussurro longo e triste. Uma melodia sem misericórdia, uma respiração atenta e discreta. Foi assim que se passaram os últimos anos.

Minhas lembranças são mais fortes quando criança. Época em que cada dia era um eternidade de descobertas e conquistas. Cada ano que passa, mais sinto o martelo do tempo rodopiando minha alma e me trazendo mais próxima do fim.

Quanta vida ainda resta? Em dias, anos, décadas? Quantas vidas preciso me extinguir pra descobrir quem eu realmente sou? Cada sonho me leva de volta ao tempo em que podia tocar a eternidade com a ponta dos meus dedos. Cada saudade me leva em direção ao coração que lá atrás batia desesperadamente feliz.

Os anos que não me recordo, são basicamente os últimos. Anos que não me lembro, não por doença, Alzheimer ou desatenção, mas anos que simplesmente parei de suspirar e vivi a vida que não era minha.

Hoje, de volta ao que restou de mim, tento encontrar peças que me fazem voltar a sorrir. E para voltar a ser feliz, preciso enterrar as cinzas de quem eu não quero mais ser. É difícil viver dentro de mim hoje em dia.

Relendo páginas amareladas pelo tempo que passou e não vi. Lá estava uma carta. Uma mensagem de amor eterno que na época insisti em acreditar que era , de fato, eterno. Hoje o eterno não passa de um bom comercial exibido na TV.

Ao abrir minha caixa postal, inbox como teimam em chamar, revejo algumas noticias de quem eu amei e passou. Como uma gripe mal curada, ou uma dose de ressaca. Penso: “mais uma vez”. Fecho meus olhos e deito pensando em como seria melhor se a chuva lavasse a minha solidão.

Se eu pudesse, agora seria um bom momento de esquecer o mundo. O relógio, importunamente, me força a acordar. Que horas são? Quem sou eu? Incrédula na minha própria maneira de não ser.

Respiro e sussurro, Mais uma vez, uma vez pra sempre, eu sou o que eu já deixei de ser.

Anúncios

Sobre Andreza

Jornalista, tradutora, escritora, sonhadora, dona de casa sem uma casa, irmã caçula e péssima em encontrar uma harmonia com teclados de configurações diferentes. Gosta de ler em demasia, mas a miopia não ajuda. Gosta de escrever com moderação, as palavras precisam ser digeridas.
Esse post foi publicado em Desabafo e marcado , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s