O infinito

Todos os dias ele se levantava antes do sol, penteava seus cabelos densamente prateados, escovava os dentes postiços, vestia-se de acordo com o tempo e saía com um pacote debaixo dos braços. Era assim há uns cinco anos, desde a morte da sua esposa e casamento do filho caçula. Levava consigo uma esperança melancólica de alegria ainda não descoberta e paz não ainda merecida.

Seguia caminhando pelas ruas escuras em passos lentos e cuidadosos. Parava na entrada do parque e esperava o segurança para abrir os portões.

“Bom dia Zé!” – chamava assim o guardinha desengonçado e com dentes tortos.

Assim que os portões se abriam, caminhava com mais vigor como quem entra para sua definitiva e derradeira batalha.

Com cuidado, desembrulhava o brinquedo do papel pardo e lentamente separava os acessórios que o acompanhavam. A manhã era longa e o sol ainda se intimidava em brilhar, pois se a tristeza tinha uma cor, com certeza era azul.

Os dedos castigados pelo tempo e pela artrose definhavam cautelosamente escorrendo por dentro de cada nó das mãos. Assim, com segurança militar para evitar que as próprias mãos machucassem seu brinquedo, ele o colocava sobre as águas de uma piscina restrita. Voltava cerca de sete passos e se sentava com dificuldade no frio banco de concreto que ficava ali a fitar a alegria das árvores ao longe.

Calmamente, ligava o brinquedo antes restrito ao papel pardo e deixava que ele flutuasse sobre as águas turvas, alcançando assim a liberdade que pra ele era só uma bonita metáfora recortando o vento em hélices de plástico, movendo-se basicamente por setas de um controle remoto castigado pelo tempo. O barquinho sempre andava em curvas e o mesmo desenho era sempre repetido em ondas brancas sob a água: o infinito está mais perto de quem sabe enxerga-lo.

A solidão cessava ali. Por um instante, por uma eternidade.

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Sobre Andreza

Jornalista, tradutora, escritora, sonhadora, dona de casa sem uma casa, irmã caçula e péssima em encontrar uma harmonia com teclados de configurações diferentes. Gosta de ler em demasia, mas a miopia não ajuda. Gosta de escrever com moderação, as palavras precisam ser digeridas.
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