Açúcar ou Adoçante?

Ela mexia os dedos incessantemente. Quase ao ponto de delírio sumbisso às vontades do inconsciente. Estava exausta. Chegou de viagem, jogou as malas em cima do sofá, tomou um bom banho quente e estava agora mexendo os dedos. Esperando o tempo dar uma resposta ao que ela não sabe explicar.

O dedo indicador desenhava no dedão uma imagem invisível de uma carinha feliz. Era uma forma involuntária de pedir por alegria. Ficava assim, com os dedos em movimento no ar frio e úmido da noite. Ouvia uma música de amor falido. Pensava em como era sua vida sem amor. Sem amor de verdade. Às vezes seu amor se misturava com tantos outros sentimentos que era difícil saber qual era o verdadeiro. Amava alguém de fato, ou amava o fato de poder amar alguém?

Pensava nele com carinho. A amizade de início se tornou físico e real. Depois vieram suas dúvidas, anseios, e logo começaram as mágoas. É incrível como algumas pessoas escondem suas dores em um lugar tão escondido dentro do peito que nem elas conseguem achar para se livrar disso depois.

Acredito que a dúvida é o pior tipo de morte. Morte de tudo o que existe de bom ou ruim. Otelo sucumbiu à dúvida. Assim como Casmurro. Ela também estava sendo corroída. Ela também estava morrendo. Duvidava não apenas da reciprocidade desse amor. Duvidava, acima de tudo, se era realmente amor o que ela sentia. Duvidava se seria a pior forma de castigo imposto à ela por sonhar demais e pedir sempre por mais alegria.

A chaleira apitou avisando a água fervente. A música começou novamente sem o menos toque no teclado de computador. Os dedos ainda se mexeram compulsivos. Duvidosos. Obsessivos. Arbitrários. O pensamento caía em cascatas dentro dos olhos marcados de vermelho pelo cloro da piscina, ou seriam pelas lágrimas que não quis demonstrar? Ela tinha recebido uma mensagem de celular no dia anterior, sem muitas declarações. Apenas uma mensagem de carinho distante. Ele queria demonstrar o apego à ela? Ou queria rir da inocência incoerente dela? Certas vezes eram felizes em dupla. Certas vezes ela o odiava mais do que tudo. Noites e noites aguardando uma decisão, um ultimato próprio, muitas vezes sem solução, sempre sem ação nenhuma no alvorecer.

Começou então a pior das dúvidas. Aqui, deixo registrado que a maior dúvida não é se ele a ama de verdade, mas sim, a dúvida de estar plenamente sã entre seus próprios pensamentos. Questionava de forma pura e simples se tudo isso era de verdade. Questionava se seu desejo de ser feliz a levava para longe da razão humana, bem pra perto da loucura psicótica. Imaginava se tinha mesmo colocado a chaleira no fogão. Ela teria mesmo ido viajar? A casa ainda permanecia igual a ontem. Mas foram dois dias. Foram apenas dois dias? Entrara mesmo na piscina três horas antes? Que horas eram de fato?

Se levantou rispidamente e foi em direção da cozinha. Sim, pelo menos a água era real. Alívio. Voltou a sentar na janela e recomeçou o processo de mexer os dedos. Ela pensava nele novamente. Uma carinha feliz totalmente invisível por segundo. Queria arrancar isso do peito. Jogar fora desejos e remorsos. Na noite anterior respondeu com outra mensagem, dessa vez demonstrando claramente que sentia falta dele. Não obteve outra mensagem nem ontem, nem hoje. O que antes era alegria e esperança, hoje eram mais e mais dúvidas cretinas. Pensava se o movimento dos dedos continuasse, se a impressão digital continuaria intacta. Sangraria se levasse isso a diante?

Não havia resposta. Todas as pessoas ignoravam o motivo disso tudo. Nem ele sabia que todo o mundo desmoronava dentro dela. Orgulhosa, não contou a ninguém o que a magoava de verdade. Infantil, não tinha coragem de terminar tudo. Carente, queria mais dos beijos e abraços dele. Moribunda, rezava por mais alegria. E rezou.

Quando a noite já tinha deixado de ser a sedutora donzela de véu negro, ela se virou de lado no sofá e dormiu. Um único pensamento surgiu no limiar entre o sono e o estado de alerta: Queria mesmo é desenhar com os dedos uma carinha feliz nos lábios dele. Ah, como isso seria bom!

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Sobre Andreza

Jornalista, tradutora, escritora, sonhadora, dona de casa sem uma casa, irmã caçula e péssima em encontrar uma harmonia com teclados de configurações diferentes. Gosta de ler em demasia, mas a miopia não ajuda. Gosta de escrever com moderação, as palavras precisam ser digeridas.
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