A arte de desenhar

Quando eu era criança eu desenhava histórias de príncipes e princesas, pais e filhos, fazendas e casas, enfim, tudo o que povoava a minha imaginação. Desenhava com qualquer coisa que tinha nas mãos, e isso deixava minha mãe louquinha da vida comigo. Era o meu modo de fazer o mundo. Crianças são boas em mudar o mundo.

Daí virei adolescente, e não queria mais mudar o mundo, queria que o mundo mudasse por mim. E como todos os adolescentes pensam que são donos do universo, foi um tanto frustrante saber que nada ia mudar pelo meu simples desejo. Adolescentes sofrem com isso, e justamente por isso são péssimos em manter as ferramentas simples para fazer algo realmente extraordinário.

E então finalmente virei gente, cresci, arranjei empregos, trabalhos, responsabilidades, números, currículo, contas bancárias, aluguel, o maldito PIS, IPTU, INSS, IPVA, e todas as siglas para o suicídio mental de todas as coisas que realmente importam. É minha gente, é difícil ser criança no mundo de gente grande.

Mas um desses dias quentes e abafados, quase como os dias de morte lenta e suculenta, eu decidi voltar a desenhar. Mas dessa vez foi diferente, não desenhei no papel, desenhei no escuro entre a fumaça que soltava do cigarro com o vapor do meu café. Desenhei mundos infinitos com enredos espetaculares. E tudo nascia e morria no ar. O invisível é tão mais rico e tão mais simples que a rotina de gente grande. Minhas espirais de fumaça eram vivas e tinham sua própria vontade, por mais que eu tentasse moldá-las, elas seguiam o rumo que queriam, mas eu ainda mudava o desenho fazendo mais espirais quase invisíveis. Eu ri. As pessoas podiam rir bem mais se pudessem ver o que os olhos não conseguem definir.

E continuei desenhando novas formas com farelinhos de comida, restinhos de papel picado,  desenhei rios com as minhas próprias lágrimas e finalmente consegui desenhar um riso na janela ao amanhecer. É bom quando se consegue desenhar a felicidade, mesmo que em doses pequenas.

Não perdi meus desenhos, eles vivem por aí, rodopiando e dançando pelos ventos e sussurros. Agora inventei de desenhar com as palavras, mas essas sim são traiçoeiras, elas gostam de fingir que estão paradas só pra gente pensar que elas são frágeis, até o momento que elas arrancam seu coração e destroem sua alma. Ainda estou aprendendo a desenhar com as palavras, portanto, me perdoem se por vezes elas são mal-educadas. Ainda estou tentando ensiná-las a se portar como as minhas espirais de fumaça.

Educadinhas sim, prisioneiras jamais.

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Sobre Andreza

Jornalista, tradutora, escritora, sonhadora, dona de casa sem uma casa, irmã caçula e péssima em encontrar uma harmonia com teclados de configurações diferentes. Gosta de ler em demasia, mas a miopia não ajuda. Gosta de escrever com moderação, as palavras precisam ser digeridas.
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