Com amor, Mona.

Eu conheço bem as ruas da cidade. Já andei por muitos lugares. Nunca encontrei um lugar em que realmente pudesse me sentir em casa. Aliás, eu tinha uma casa, o mais próximo do que se pode chamar de lar. Mona cuidava de mim. Não era bonita, mas satisfazia bem as minhas necessidades. Costumava acordar cedo e ela pegava o jornal para mim. Limpava, cozinhava, fazia o almoço, assistia à televisão, e vez ou outra saía para o salão de beleza. No fundo eu acho que ela jamais seria linda, e mesmo assim mantinha sempre as mãos bem cuidadas. Acho que ela considerava as mãos a única parte do corpo sexy, por isso sempre as mantinha impecáveis.

Um dia eu me cansei. Saí de casa. Não sei se Mona chorou por minha causa. Ela sabia que nossa relação não era eterna. Tínhamos uma bela diferença de idade. Trinta anos. Eu ainda era jovem, precisava viver um pouco. Não podia passar o resto da minha existência preso em uma vida medíocre como aquela.

Em um certo momento, confesso, pensei em voltar. E voltei. Encontrei Mona saindo de um café com um sujeitozinho magrelo e sem graça. Percebi que nunca mais teria o coração dela. Dei meia volta e fui embora, ela não me viu. Se viu, não tentou falar comigo. Não saí particularmente magoado. Apenas frustrado. Foram dois anos morando na mesma casa. Paixão à primeira vista. Ela cuidava de mim como se cuida de uma jóia. Mas de qualquer forma e não sei por qual razão eu não queria mais ser apenas um desfrute daquela mulher. Dava o que ela queria e ela cuidava de mim. Nada mais. Nada menos. Partilhávamos coisas lindas. Passeios singelos no parque, andávamos quarteirões em volta de nossa casa, íamos sempre juntos nas feiras de artesanato que ela sempre gostava. Frustrado porque achei que ela não me substituiria tão rápido. Apenas isso que eu senti. Se ainda assim, meus leitores, vocês acharem que sou um mau caráter, não posso fazer nada para que mudem de ideia.

Isso aconteceu há muito tempo. Estou velho. Tive filhos. Filhos que nunca me conheceram. Nem eu me lembro do rosto deles. Me disseram outro dia que um dos meus bebês já estava crescido. Morava numa bela casa em frente ao parque que sempre ia com Mona. Meu filho…Ed. Esse era o nome dele. Ele sempre andava pra lá e pra cá com sua longa juba loira ao vento. Dizem as más línguas que ele era rebelde que nem o pai. Como eu…Pra ser sincero não me lembro da mãe dele. Apenas de uma única noite que estivemos juntos. Não importa mais…Dos outros filhos que tive nunca mais vi ou ouvi falar de nenhum deles.

Meus ossos doem como se fossem partes de nervos que são constantemente cutucados com um espeto. Virei um mendigo. Passo o dia revirando lixo em busca de comida. Algumas pessoas se compadecem e me dão o que comer. Não são raras essas pessoas gentis na minha vida. Às vezes acho que meu único pecado e erro foi nunca ter dado o verdadeiro valor a essas pessoas. Sempre dispostas a ajudar sem pedir nada em troca. Mas já é tarde demais. Ano passado soube que Mona se casara. E ela ainda estava com o magricela sem graça que vi outro dia. Ela teve um filho. Ela tem uma família. Eu nunca cheguei a ter uma família. Meu pai morreu cedo e minha mãe era uma cadela sebenta. Me teve na rua e da mesma forma me abandonou. Sem pensar ou sentir. Se tive irmãos nunca soube.

Estou deitado na calçada juntando as lembranças que tenho dessa vida. Não me arrependo de muitas coisas. Mona. Ela é a única pessoa que me entristece. Tão carinhosa. Tão afetuosa. Ela tem o que sempre mereceu. Um lar. Nem isso eu tenho. E a única coisa que nunca pude dar a ela. Sofro um pouco com isso. Mas não muito. O caminhão de lixo passa pela minha frente arrancando os restos das vidas das pessoas. Bem que eles podiam levar essa dor. Estou cansado. Velho. Sujo. Feio. Estou pronto pra morrer. Lá vem outro caminhão. Quero dormir e nunca mais acordar. Só isso. Tudo isso.

O caminhão de gás passa e tenta desviar de mim. Não consegue. Morro, enfim, com o rabo entre as pernas.

Nota divulgada no jornal da manhã: Acidente com caminhão de gás fere motorista e causa incêndio. Não houve mortos ou feridos. A polícia acredita que o motorista tentou desviar de um cachorro de rua, mas não conseguiu. Foi achado a carcaça do animal e um pingente de ouro escrito: “Com amor, Mona”.

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Sobre Andreza

Jornalista, tradutora, escritora, sonhadora, dona de casa sem uma casa, irmã caçula e péssima em encontrar uma harmonia com teclados de configurações diferentes. Gosta de ler em demasia, mas a miopia não ajuda. Gosta de escrever com moderação, as palavras precisam ser digeridas.
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