Os ovos

Quando eu era pequena minha mãe fazia bolos de festa, naquela época não existia essa pasta americana, então tudo era feito com glacê e modelados com bonequinhos de plástico. Lembro de ficar no balcão da cozinha esperando ela terminar de bater a cobertura. Era costume meu, também, ajudá-la colocando a medida de açúcar na xícara ou quebrando com cuidado os ovos.
De vez em quando os ovos se quebravam e estavam podres. Mamãe me ensinou a separá-los em uma xícara antes de misturar com a massa. Nunca mais perdi outro bolo por causa disso. Outras vezes os ovos estavam bons, mas quando se separa a clara da gema, principalmente para fazer claras em neve, não se pode colocar nada da gema. Vez ou outra a gema ia junto e a mistura desandava. Aprendi então a separar nas mãos, hoje em dia já consigo separar na casquinha do próprio ovo sem quebrar a parte amarelinha.
Uma vez, no meu aniversário, ela prometeu fazer um bolo de princesa. Eu sonhava com esse bolo desde que o vi estampado nas revistas de boleiras. Enquanto ela misturava os ingredientes secos, eu fui pegar na dispensa uma caixa cheia de ovos para que ela pudesse fazer cabelinho de anjo para decorar os lindos cavelos da minha heroína. Na volta, eu virei o pé e caíram mais de quarenta ovos no chão. Chorei como quem está condenado à morte. Soluçava de dor e tristeza. Minha mãe me pegou no colo e me disse que eram apenas ovos. Nada mais. Então veio a raiva. Grande mentira essa! Não eram somente ovos! Eram os cabelinhos de anjo, levemente açucarados que iriam pra cima da bonequinha de olhos azuis! Ia ser uma princesinha num bolo com glacê cor de rosa! Como a princesinha ia ficar bonita se não teria cabelo dourado? Como meu bolo ficaria bonito sem os fiozinhos reluzentes em cima? Não dava! Pela primeira vez na vida eu senti que minha mãe mentia pra mim, senti o fracasso de querer algo e tudo se quebrar na frente dos olhos.

Agarrei-me na caixa que estava no chão. Olhei longamente para os ovos. Não sobrou nenhum. Comecei a brincar com os restos no chão junto com a terra. Achei que eu mesma faria um bolo sair daquela meleca. Comovida, minha mãe me puxou de lado, me deu um beijo na testa suja e aquilo me fez parar de chorar. Mas ainda me parecia impossível ter meu bolo de princesa novamente.

Minha mãe me levou pro banheiro, disse pra eu tomar um banho e trocar de roupa, disse que fresquinha eu pensaria melhor e a tristeza passaria. Tomo banhos várias vezes por dia por causa disso. Sempre à espera da dor ser lavada com a água. Quando saí do banho, vi que ela tinha separado uma roupa de renda rosa, igual ao vestido de festa dela. Vesti sem questionar. Achei que ela queria que eu me sentisse bonita pra não lembrar dos ovos.

Fui quietinha até a cozinha, de cabeça baixa e olhos no chão. Ela estava preparando algo que não sabia o que era. Me sentei no balcão perto da porta com os pés balançando pra evitar a monotonia. Não disse uma palavra. Ela me sugeriu ir brincar lá fora. Não quis, voltei para o sofá e dormi.

Acordei sonolenta de um descanso sem sonhos. Quando cheguei à cozinha não acreditei. Não, não era o bolo de princesa. Era um carrossel! Com cavalinhos brilhantes, geléia de morango e milhares de confeitos prateados. E o carrossel ainda girava! Tosca e lentamente, mas se movia. Era perfeito! Esqueci da princesa na hora e pensava somente em ter um pedaço daquele bolo. Minhas buchechas enormes não eram suficientes para o tamanho do meu sorriso. Não era pelo bolo perfeito. Nem era pelo sonho de ser princesa. Ali, naquele momento, eu tinha ambos. E foi por isso, por toda a tragédia daquele dia que eu aprendi que as voltas do carrossel são mais alegres que a estética estática. Foi aí que aprendi que para se ter um sonho realizado é preciso se moldar aos acontecimentos. É preciso quebrar os ovos pro mundo se mover.

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Sobre Andreza

Jornalista, tradutora, escritora, sonhadora, dona de casa sem uma casa, irmã caçula e péssima em encontrar uma harmonia com teclados de configurações diferentes. Gosta de ler em demasia, mas a miopia não ajuda. Gosta de escrever com moderação, as palavras precisam ser digeridas.
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2 respostas para Os ovos

  1. Que lindo Andreza, adorei!
    Eu lembro de um bolo que o meu pai enfeitou para mim, era de “nega maluca” – o que ele quis dizer com isso? rs
    Beijo

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