A arte de desenhar

Quando eu era criança eu desenhava histórias de príncipes e princesas, pais e filhos, fazendas e casas, enfim, tudo o que povoava a minha imaginação. Desenhava com qualquer coisa que tinha nas mãos, e isso deixava minha mãe louquinha da vida comigo. Era o meu modo de fazer o mundo. Crianças são boas em mudar o mundo.

Daí virei adolescente, e não queria mais mudar o mundo, queria que o mundo mudasse por mim. E como todos os adolescentes pensam que são donos do universo, foi um tanto frustrante saber que nada ia mudar pelo meu simples desejo. Adolescentes sofrem com isso, e justamente por isso são péssimos em manter as ferramentas simples para fazer algo realmente extraordinário.

E então finalmente virei gente, cresci, arranjei empregos, trabalhos, responsabilidades, números, currículo, contas bancárias, aluguel, o maldito PIS, IPTU, INSS, IPVA, e todas as siglas para o suicídio mental de todas as coisas que realmente importam. É minha gente, é difícil ser criança no mundo de gente grande.

Mas um desses dias quentes e abafados, quase como os dias de morte lenta e suculenta, eu decidi voltar a desenhar. Mas dessa vez foi diferente, não desenhei no papel, desenhei no escuro entre a fumaça que soltava do cigarro com o vapor do meu café. Desenhei mundos infinitos com enredos espetaculares. E tudo nascia e morria no ar. O invisível é tão mais rico e tão mais simples que a rotina de gente grande. Minhas espirais de fumaça eram vivas e tinham sua própria vontade, por mais que eu tentasse moldá-las, elas seguiam o rumo que queriam, mas eu ainda mudava o desenho fazendo mais espirais quase invisíveis. Eu ri. As pessoas podiam rir bem mais se pudessem ver o que os olhos não conseguem definir.

E continuei desenhando novas formas com farelinhos de comida, restinhos de papel picado,  desenhei rios com as minhas próprias lágrimas e finalmente consegui desenhar um riso na janela ao amanhecer. É bom quando se consegue desenhar a felicidade, mesmo que em doses pequenas.

Não perdi meus desenhos, eles vivem por aí, rodopiando e dançando pelos ventos e sussurros. Agora inventei de desenhar com as palavras, mas essas sim são traiçoeiras, elas gostam de fingir que estão paradas só pra gente pensar que elas são frágeis, até o momento que elas arrancam seu coração e destroem sua alma. Ainda estou aprendendo a desenhar com as palavras, portanto, me perdoem se por vezes elas são mal-educadas. Ainda estou tentando ensiná-las a se portar como as minhas espirais de fumaça.

Educadinhas sim, prisioneiras jamais.

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#SOPAblackoutBr

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A minha solidão

A minha solidão não é bruta
não derruba, não machuca, não destrói.

A minha solidão é fluída,
vem em ondas sorrateiras,
como um sorriso no cantinho da boca
que insiste em não sorrir.

A minha solidão é pacata,
como aquela dor com data e hora marcada,
a solidão do ônibus no último assento perto da janela.

A minha solidão é leve,
como o despertar de um sonho ruim,
o limiar do céu e da terra,
o horizonte do olhar e da lágrima.

A minha solidão não sangra,
não morde, não fere, não vive.
Ela é o deleite das estrelas
e o último prazer da reconciliação.

A minha solidão é vontade de viver fora de mim.

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Com amor, Mona.

Eu conheço bem as ruas da cidade. Já andei por muitos lugares. Nunca encontrei um lugar em que realmente pudesse me sentir em casa. Aliás, eu tinha uma casa, o mais próximo do que se pode chamar de lar. Mona cuidava de mim. Não era bonita, mas satisfazia bem as minhas necessidades. Costumava acordar cedo e ela pegava o jornal para mim. Limpava, cozinhava, fazia o almoço, assistia à televisão, e vez ou outra saía para o salão de beleza. No fundo eu acho que ela jamais seria linda, e mesmo assim mantinha sempre as mãos bem cuidadas. Acho que ela considerava as mãos a única parte do corpo sexy, por isso sempre as mantinha impecáveis.

Um dia eu me cansei. Saí de casa. Não sei se Mona chorou por minha causa. Ela sabia que nossa relação não era eterna. Tínhamos uma bela diferença de idade. Trinta anos. Eu ainda era jovem, precisava viver um pouco. Não podia passar o resto da minha existência preso em uma vida medíocre como aquela.

Em um certo momento, confesso, pensei em voltar. E voltei. Encontrei Mona saindo de um café com um sujeitozinho magrelo e sem graça. Percebi que nunca mais teria o coração dela. Dei meia volta e fui embora, ela não me viu. Se viu, não tentou falar comigo. Não saí particularmente magoado. Apenas frustrado. Foram dois anos morando na mesma casa. Paixão à primeira vista. Ela cuidava de mim como se cuida de uma jóia. Mas de qualquer forma e não sei por qual razão eu não queria mais ser apenas um desfrute daquela mulher. Dava o que ela queria e ela cuidava de mim. Nada mais. Nada menos. Partilhávamos coisas lindas. Passeios singelos no parque, andávamos quarteirões em volta de nossa casa, íamos sempre juntos nas feiras de artesanato que ela sempre gostava. Frustrado porque achei que ela não me substituiria tão rápido. Apenas isso que eu senti. Se ainda assim, meus leitores, vocês acharem que sou um mau caráter, não posso fazer nada para que mudem de ideia.

Isso aconteceu há muito tempo. Estou velho. Tive filhos. Filhos que nunca me conheceram. Nem eu me lembro do rosto deles. Me disseram outro dia que um dos meus bebês já estava crescido. Morava numa bela casa em frente ao parque que sempre ia com Mona. Meu filho…Ed. Esse era o nome dele. Ele sempre andava pra lá e pra cá com sua longa juba loira ao vento. Dizem as más línguas que ele era rebelde que nem o pai. Como eu…Pra ser sincero não me lembro da mãe dele. Apenas de uma única noite que estivemos juntos. Não importa mais…Dos outros filhos que tive nunca mais vi ou ouvi falar de nenhum deles.

Meus ossos doem como se fossem partes de nervos que são constantemente cutucados com um espeto. Virei um mendigo. Passo o dia revirando lixo em busca de comida. Algumas pessoas se compadecem e me dão o que comer. Não são raras essas pessoas gentis na minha vida. Às vezes acho que meu único pecado e erro foi nunca ter dado o verdadeiro valor a essas pessoas. Sempre dispostas a ajudar sem pedir nada em troca. Mas já é tarde demais. Ano passado soube que Mona se casara. E ela ainda estava com o magricela sem graça que vi outro dia. Ela teve um filho. Ela tem uma família. Eu nunca cheguei a ter uma família. Meu pai morreu cedo e minha mãe era uma cadela sebenta. Me teve na rua e da mesma forma me abandonou. Sem pensar ou sentir. Se tive irmãos nunca soube.

Estou deitado na calçada juntando as lembranças que tenho dessa vida. Não me arrependo de muitas coisas. Mona. Ela é a única pessoa que me entristece. Tão carinhosa. Tão afetuosa. Ela tem o que sempre mereceu. Um lar. Nem isso eu tenho. E a única coisa que nunca pude dar a ela. Sofro um pouco com isso. Mas não muito. O caminhão de lixo passa pela minha frente arrancando os restos das vidas das pessoas. Bem que eles podiam levar essa dor. Estou cansado. Velho. Sujo. Feio. Estou pronto pra morrer. Lá vem outro caminhão. Quero dormir e nunca mais acordar. Só isso. Tudo isso.

O caminhão de gás passa e tenta desviar de mim. Não consegue. Morro, enfim, com o rabo entre as pernas.

Nota divulgada no jornal da manhã: Acidente com caminhão de gás fere motorista e causa incêndio. Não houve mortos ou feridos. A polícia acredita que o motorista tentou desviar de um cachorro de rua, mas não conseguiu. Foi achado a carcaça do animal e um pingente de ouro escrito: “Com amor, Mona”.

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Meu último verso triste

Joguei fora o último verso triste que eu mantinha no peito. Agora, minha poesia é limpa, porém criteriosa; forte, porém delicada; e acima de tudo, a minha poesia é alma sem monstros pra colocá-la no lixo. Coragem se tem, simples assim, não se compra em 10x sem juros. Pronto, falei. Beijos e continue pela sombra.

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Virgílio ou Inception?

Quero acordar de um pesadelo
Sem cair em outro

Um sonho dentro de outro sonho
Nove círculos do inferno

Acorda Cinderela
Que o seu ônibus já partiu.

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Bolinho de chuva

 

 

Faço das palavras um bolo,
não de aniversário, cheio de enfeites e confeitos,
mas bolinhos de chuva,
salpicados com açúcar de confeiteiro
e uma boa xícara de café numa tarde serena
para acordar.

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NEVE, VIDRO E MAÇÃS

Adoro esse texto. Simplesmente adoro.

 

Eu não sei que espécie de coisa ela é. Nenhum de nós sabe. Ela matou sua mãe ao nascer, e nunca é demais lembrar sua culpa por isso.

Dizem que sou sábia, mas estou longe disso. Tudo que previ foram fragmentos, momentos congelados e presos em poças d’água ou no vidro do meu espelho. Se eu fosse sábia, não teria tentado mudar o que vi. Se eu fosse sábia, teria me matado antes mesmo de encontrá-la, antes mesmo de tê-lo conquistado. Sábia, e bruxa, ou assim o dizem, e eu tinha visto o rosto dele nos meus sonhos e pensamentos por toda a minha vida: dezesseis anos a sonhar com ele, antes do dia em que ele parou seu cavalo perto da ponte, naquela manhã, e perguntou meu nome. Ele me ajudou a montar no seu altivo cavalo, e fomos juntos para minha pequena propriedade no campo, meu rosto enterrado no dourado dos seus cabelos. Ele me pediu o que eu tinha de melhor; era seu direito, por ser rei.

Sua barba era de um vermelho-bronze à luz da manhã, e eu o conheci, não como um rei, pois eu não sabia nada sobre reis então, mas como meu amor. Ele teve de mim tudo o que queria – é um direito dos reis – mas me retribuiu no dia seguinte, e na noite também: sua barba tão vermelha, seu cabelo tão dourado, seus olhos do azul de um céu de verão, sua pele bronzeada, com a cor gentil do trigo maduro.

Sua filha era só uma criança: não mais que cinco anos de idade quando eu cheguei ao palácio. Um retrato da sua mãe morta pendia da parede do seu quarto, na torre: uma mulher alta, seu cabelo da cor do ébano, os olhos castanhos. Sua pálida filha não parecia descender dela.

Uma noite, vários meses após eu ser levada ao palácio, ela veio aos meus aposentos. Estava com seis anos. Eu bordava à luz do lampião, apertando meus olhos à sua fumaça e à sua parca iluminação. Quando levantei os olhos, ela estava ali.

- Princesa?

Ela não disse nada. Seus olhos eram negros como o carvão, negros como seus cabelos; seus lábios eram mais vermelhos que o sangue. Ela olhou para mim e sorriu. Seus dentes pareceram afiados, mesmo ali, à luz do lampião.

- O que você está fazendo fora do seu quarto?

- Estou com fome – ela disse, como qualquer criança. Era inverno, um tempo em que comida fresca é como um sonho de calor e luz do sol; mas eu tinha cordões de maçãs, descaroçadas e secas, penduradas nas vigas do meu aposento, e puxei uma para ela.

- Tome.

O outono é a época de secar, de preservar, a época de colher maçãs e gordura de ganso. O inverno é a época da fome, da neve e da morte, e é a época de Festival, quando esfregamos gordura de ganso na pele de um porco e o recheamos com as maçãs colhidas no outono, e então o assamos ou grelhamos, e organizamos o festival enquanto ele estala no fogo.

Ela pegou a maçã seca e começou a mordiscá-la, com seus dentes amarelos e afiados.

- Está boa?

Ela assentiu. Eu sempre tive medo da princesinha, mas naquele momento me aconcheguei a ela e com meus dedos, gentilmente, acariciei seu rosto. Ela olhou para mim e sorriu – ela sorria raramente – , e então fincou seus dentes na base do meu polegar, tirando sangue.

Eu ia começando a gritar, de dor e surpresa; mas ela olhou para mim e eu caí em silêncio.

A princesinha fixou sua boca à minha mão, e lambeu, chupou, sugou. Quando terminou, deixou meus aposentos. Diante do meu olhar, a perfuração feita por ela começou a se fechar, a cicatrizar, a sarar. No dia seguinte, ela era como uma cicatriz antiga: eu poderia ter cortado minha mão com um canivete, quando era criança.

Eu havia sido congelada por ela, possuída e dominada. Aquilo me assustou, mais do que o sangue de que ela havia se alimentado. Depois daquela noite, eu trancava meus aposentos ao anoitecer, barrando a porta com uma tranca de carvalho, e pedi ao ferreiro que fizesse barras de aço e as colocasse nas minhas janelas. Meu marido, meu amor, meu rei, passou a me procurar cada vez menos, e quando eu ia a ele o encontrava atordoado, indiferente, confuso. Ele não conseguia mais fazer amor como um homem, e não me permitia dar-lhe prazer com minha boca; a única vez que tentei, ele se sobressaltou violentamente, e começou a chorar. Eu retirei minha boca e o abracei com força, até os soluços pararem, e ele dormiu, como uma criança.

Enquanto ele dormia, corri meus dedos pela sua pele. Estava coberta de muitas cicatrizes antigas. Mas eu não me recordava de nenhuma cicatriz na época da nossa côrte, exceto uma, no seu quadril, onde um urso o havia ferido na sua juventude.

Logo ele era apenas uma sombra do homem que eu havia conhecido e amado naquele dia, na ponte. Seus ossos estavam aparecendo sob a pele, azuis e brancos. Eu estava com ele nos seus momentos finais: suas mãos estavam frias como pedra, seus olhos de um azul leitoso, seu cabelo e barba escassos e opacos. Ele morreu sem tremer, sua pele picada e pustulenta da cabeça aos pés com cicatrizes minúsculas.

Ele já não pesava quase nada. O chão já estava bem congelado então, e não pudemos cavar seu túmulo. Então fizemos um marco de rochas sobre o corpo, como um memorial, pois restava muito pouco dele para proteger da fome das feras e dos pássaros.

E então eu era rainha.

E era tola, e jovem – apenas dezoito verões tinham se passado desde que vi a luz do sol pela primeira vez – e não fiz o que faria se fosse agora.

Se fosse agora, é verdade que eu teria arrancado seu coração. Mas também teria arrancado sua cabeça, braços e pernas. Eu a teria estripado. E teria assistido, na praça da cidade, enquanto o carrasco preparasse o fogo aos berros, assistido sem nem piscar enquanto ele entregasse cada parte dela ao fogo. Eu colocaria arqueiros ao redor da praça, que iriam atirar em cada pássaro ou animal que se aproximasse das chamas, qualquer corvo, cachorro, falcão ou rato. E não fecharia meus olhos até que a princesa virasse cinzas, e que um vento gentil pudesse espalhá-la como neve.

Eu não fiz nada disso, e nós pagamos por nossos erros.

Dizem que fui enganada; que aquele não era o coração dela. Que era o coração de um animal – um cervo, talvez, ou um urso. Dizem isso, mas estão enganados.

E alguns dizem (mas quem mentiu foi ela, e não eu) que me foi dado o seu coração, e que eu o comi. Mentiras e meias-verdades caem como neve, cobrindo as coisas que eu me lembro e as coisas que vi.

Uma paisagem, irreconhecível depois de uma tempestade de neve; foi o que ela fez da minha vida.

Havia cicatrizes no meu amor, nas coxas do pai dela, nos seus testículos, e no seu membro, quando ele morreu.

Eu não fui com eles. Pegaram-na durante o dia, enquanto ela dormia e estava mais enfraquecida. Levaram-na para o coração da floresta, e lá abriram sua blusa e cortaram fora o seu coração, deixando-a morta, numa vala, para a floresta engolir.

A floresta é um lugar escuro, a fronteira de muitos reinos; ninguém seria tolo o suficiente para reclamar jurisdição sobre ela.

Foras-da-lei viviam lá. Ladrões viviam lá, e lobos também. Alguém poderia cavalgar por ela uma dúzia de dias e nunca ver uma alma que fosse, mas haveriam olhos sobre a pessoa o tempo inteiro.

Eles me trouxeram o coração dela. Eu sabia que era o dela – um coração de porca ou de corça não teria continuado pulsando e batendo depois de ter sido arrancado fora, como aquele. Eu o levei para os meus aposentos. Não o comi; pendurei-o nas vigas sobre a minha cama, e preenchi a distância entre ambos com frutinhas do mato, vermelho-alaranjadas como o peito do tordo, e com cordões de alho.

Lá fora, a neve caía, cobrindo as pegadas dos meus caçadores, cobrindo seu corpinho na floresta onde ele jazia.

Pedi ao ferreiro que removesse as barras de aço das minhas janelas, e passei algum tempo no meu quarto, cada tarde naqueles curtos dias de inverno, perscrutando a floresta, até a escuridão cair.

Havia, como eu já mencionei, o povo da floresta. Eles saíam, alguns deles, para a Feira de Primavera: um povo mesquinho, animalesco e perigoso. Alguns eram atrofiados – anões, aleijados, corcundas. Outros tinham os dentes enormes e olhares vagos de idiotas. Alguns tinham dedos como barbatanas ou patas de caranguejo. Eles se arrastavam para fora da floresta a cada ano, na Feira da Primavera, após a neve derreter.

Quando eu era uma mocinha, trabalhei na Feira, e me assustava com eles, aquele povo da floresta. Eu lia a sorte para os visitantes da Feira, numa poça de água parada; e mais tarde, quando estava um pouco mais velha, num disco de vidro polido incrustado em prata – um presente de um mercador cujo cavalo desgarrado eu tinha encontrado através de uma poça de tinta.

Os guardadores do estábulo da Feira tinham medo do povo da floresta, pois eles roubavam suas coisas guardadas nas tábuas expostas do estábulo: pedaços de pão de gengibre, ou cintos de couro, que ficavam pregados com grandes pregos de ferro nas madeiras. Diziam que se seus artigos não estivessem pregados, o povo da floresta os pegaria e fugiria, mordiscando o pão e açoitando o ar com os cintos.

O povo da floresta tinha dinheiro, todavia; uma moedinha aqui, outra ali, às vezes já esverdeada pelo tempo ou pela terra, a face desconhecida até pelos mais velhos deles. Também tinham coisas para comerciar, e assim a feira continuava, servindo proscritos, anões e ladrões (se fossem silenciosos) que pilhavam dos raros viajantes vindos das terras além da floresta, ou dos ciganos, ou apanhavam cervos (isso era roubo aos olhos da lei, os cervos pertenciam à rainha).

Os anos passaram lentamente, e meu povo dizia que eu os governava com sabedoria. O coração ainda pendia sobre minha cama, pulsando gentilmente na noite. Se ainda havia alguém que pranteava a criança, eu não tinha evidência: tinham terror dela, e se consideravam livres da sua presença.

As Feiras da Primavera se sucediam; cinco delas, cada uma mais triste, pobre e pior do que a anterior. Poucos do povo da floresta saíam para comprar. Aqueles que vinham pareciam subjugados e apáticos. Os guardadores do estábulo deixaram de pregar seus pertences nas tábuas. E por volta do quinto ano, só um punhado do povo da floresta veio – uma pequena e assustada turba de homenzinhos peludos, e ninguém mais.

O Lorde da Feira e seu pajem vieram a mim depois que a feira acabou. Eu o havia conhecido de passagem, antes de me tornar rainha.

- Eu não venho a você como minha rainha – ele disse.

Eu não disse nada. Só escutei.

- Eu venho a você porque você é sábia – continuou – Quando você era criança, encontrou um potro desgarrado olhando numa poça de tinta; quando era uma donzela, encontrou um infante perdido que havia vagado para longe de sua mãe, olhando naquele seu espelho. Você sabe segredos, e consegue encontrar coisas perdidas. Minha rainha – ele perguntou – o que está levando o povo da floresta? No próximo ano não haverá Feira da Primavera. Os viajantes de outros reinos se tornaram escassos, e o povo da floresta está quase desaparecido. Outro ano como este, e nós deveremos morrer de fome.

Ordenei à minha serva que trouxesse o meu espelho. Ele era simples, um disco de vidro polido incrustado em prata, que eu guardava envolto numa pele de corça, dentro de uma arca em meu quarto. Trouxeram-no para mim, e eu olhei.

Ela agora estava com doze anos, e não era mais uma criança. Sua pele ainda era pálida, seus cabelos e olhos negros como carvão, seus lábios vermelhos como sangue. Ainda usava as roupas com que tinha deixado o castelo pela última vez – a blusa, a saia – apesar de elas estarem já muito gastas e remendadas. Sobre elas, usava uma capa de couro, e em vez de botas, usava sacos de couro, amarrados com cordões, em seus pés minúsculos. Ela estava parada na floresta, atrás de uma árvore.

Enquanto eu olhava, com o olho da mente, vi-a correr e saltitar, passando de uma árvore para outra, como um animal, um morcego ou um lobo. Ela estava seguindo alguém.

Era um monge. Ele usava roupas de saco, e seus pés estavam nus, endurecidos e cheios de crostas. Sua barba e tonsura estavam crescidos e mal-aparados.

Ela o observava de trás das árvores. Finalmente ele parou para passar a noite, e começou a fazer um fogo, empilhando gravetos, e quebrando um ninho de torno para usar como acendedor. Ele tinha uma caixinha de metal na bata, e bateu a pedra de acender no aço até as fagulhas iniciarem o fogo. Havia dois ovos no ninho que encontrara, e ele os comeu, crus e sem tempero. Não deve ter sido uma refeição muito satisfatória para um homem tão grande. Ele sentou ali à luz da fogueira, e ela saiu do seu esconderijo. Agachou-se do outro lado do fogo e olhou fixamente para ele. Ele sorriu afetadamente, como se não visse um outro ser humano há muito, e com um gesto chamou-a para perto dele.

Ela se levantou e andou em volta do fogo, parando à distância de um braço. Ele remexeu na roupa até achar uma moeda – uma pequena moeda de cobre – e jogou-a para ela. Ela pegou-a e assentiu, indo até ele. Ele puxou a corda da cintura, e sua batina ondulou, abrindo-se. Seu corpo era tão peludo quanto o de um urso. Ela o empurrou para trás, no musgo; uma mão crispada, como uma aranha, caminhou pelo emaranhado de pelos, até fechar-se no membro. A outra mão traçou um círculo em volta do mamilo esquerdo. Ele fechou os olhos, e tateou com uma mão enorme sob a saia dela. Ela desceu com a boca para o mamilo que estava acariciando, sua pele suave e branca contra o corpo escurecido dele.

Ela cravou profundamente seus dentes no peito dele. Os olhos dele se abriram, depois se fecharam de novo, e ela bebeu. Ela o derrubou e se alimentou. Enquanto o fazia, um fino líquido enegrecido começou a pingar por entre as suas pernas.

- Você sabe o que está afastando os viajantes de nossa cidade? O que está acontecendo ao povo da floresta? – perguntou o Lorde da Feira.

Eu cobri o espelho com a pele de corça, e disse a ele que cuidaria pessoalmente para que a floresta voltasse a ser segura. Eu tinha que fazê-lo, apesar de isso me aterrorizar. Eu era a rainha. Uma mulher tola teria então ido à floresta e tentado capturar a criatura; mas eu já havia sido tola uma vez, e não tinha vontade nenhuma de sê-lo de novo.

Passei algum tempo com livros antigos, pois eu sabia ler um pouco. Passei algum tempo com as ciganas (que atravessavam nosso país pelas montanhas para o sul, ao invés de passar pela floresta, para o norte e oeste). Eu me preparei, e obtive as coisas de que precisaria, e quando as primeiras neves começaram a cair, eu estava pronta.

Nua, eu fiquei, e sozinha na mais alta torre do palácio, um lugar aberto ao céu. O vento arrepiava meu corpo; minha pele ficou como a do ganso depois de depenado. Eu carregava uma bacia de prata, e uma cesta onde havia colocado uma faca e um alfinete de prata, alguns tenazes, um manto cinzento e três maçãs verdes.

Eu os pus no chão e fiquei ali, despida, na torre, humilde diante do céu da noite e do vento. Se algum homem tivesse me visto parada ali, eu teria atraído seus olhos; mas não havia ninguém para espiar. Nuvens cruzavam o céu, escondendo e descobrindo a lua minguante.

Peguei a faca de prata e fiz um talho no meu braço esquerdo – uma, duas, três vezes. O sangue pingou na bacia, a cor escarlate parecendo negra à luz da lua.

Adicionei o pó do vial que pendia do meu pescoço. Era um pó marrom, feito de ervas secas e da pele de um certa espécie de sapo, além de algumas outras coisas. Ele tornou o sangue mais espesso, impedindo-o de coagular.

Peguei as três maçãs, uma a uma, e furei suas peles suavemente com meu alfinete de prata. Então coloquei as maçãs na bacia de prata, e as deixei lá enquanto os primeiros pequenos flocos de neve do ano caíam lentamente na minha pele, nas maçãs e no sangue.

Quando a luz do amanhecer começou a iluminar o céu, eu me cobri com o manto cinza, e peguei as maçãs, agora vermelhas, na bacia, uma a uma, colocando cada uma na minha cesta com tenazes de prata, tomando cuidado para não tocá-las. Não havia restado nada do meu sangue ou do pó marrom na bacia, a não ser um resíduo negro, como verdete.

Enterrei a bacia no chão. Então joguei um encanto de glamour nas maçãs (como havia feito, anos antes, na ponte, comigo mesma), de modo que elas se tornaram, indubitavelmente, as maçãs mais maravilhosas do mundo; e o brilho carmim de suas cascas era da mesma cor cálida de sangue fresco. Puxei o capuz do meu manto para que cobrisse meu rosto, e levei fitas e lindos adornos de cabelo comigo, colocando-os sobre as maçãs na cesta de junco, e caminhei sozinha pela floresta até chegar ao lugar em que ela morava: um alto penhasco de arenito, entremeado por grandes cavernas que penetravam profundamente nas paredes de pedra.

Havia árvores e pedras redondas ao redor, e eu andei quieta e suavemente de árvore em árvore, sem perturbar um único graveto ou folha caída. Finalmente encontrei um lugar para me esconder, e esperei, e observei.

Depois de algumas horas, um grupo de anões rastejou para fora de uma das cavernas – homenzinhos feios, deformados e cabeludos, os velhos habitantes do país, que são vistos raramente agora.

Eles desapareceram no bosque, e nenhum deles me viu, apesar de um deles ter parado para urinar contra a rocha atrás da qual eu me escondia. Eu esperei. Ninguém mais saiu.

Fui até a entrada da caverna e gritei para dentro: “Olá?”, numa voz rachada de velha.

A cicatriz perto do meu polegar latejou e pulsou quando ela veio da escuridão em direção a mim, nua e só. Ela estava com treze anos de idade, minha enteada, e nada maculava a alvura perfeita da sua pele, a não ser a lívida cicatriz do lado esquerdo do seu peito, onde seu coração havia sido arrancado dela há tempos atrás.

O interior das suas coxas estava manchado com um líquido negro imundo. Ela me olhou atentamente, escondida, como eu no meu manto. Olhava para mim de um modo faminto.

- Fitas, senhora – grasnei – lindas fitas para o seu cabelo…

Ela sorriu e acenou para que eu me aproximasse. Um puxão; a cicatriz na minha mão me puxava para ela. Eu fiz o que tinha planejado, mas fiz mais prontamente do que achava que faria: soltei minha cesta e guinchei como a velha mascate que fingia ser, e corri.

Minha capa cinzenta era da cor da floresta, e eu fui rápida; ela não me pegou. Tomei o caminho de volta ao palácio.

Eu não vi como foi. Todavia, posso imaginá-la retornando, frustrada e faminta, à sua caverna, e encontrando minha cesta caída no chão. O que ela fez?

Eu gosto de pensar que primeiro ela brincou com as fitas, enrolou-as nos seus cabelos negros, no seu pescoço pálido ou na sua fina cintura. E então, curiosa, tirou o pano que cobria a cesta para ver o que mais havia lá; e viu as maçãs tão vermelhas. Seu aroma era de maçãs frescas, naturalmente; mas também cheiravam a sangue. E ela estava faminta. Eu a imagino pegando uma das maçãs, pressionando-a contra a face, sentindo a fria suavidade contra a pele. E abrindo a boca e mordendo-a profundamente…

Quando cheguei aos meus aposentos no palácio, o coração que pendia da viga do teto, junto com as maçãs, os presuntos e as salsichas, tinha parado de bater. Pendia dali, quieto, sem movimento ou vida, e me senti segura mais uma vez.

Naquele inverno, a neve foi alta e profunda, e começou a derreter tardiamente. Todos nós estávamos famintos quando a primavera chegou. A Feira da Primavera foi um pouco melhor nesse ano. O povo da floresta ainda era pouco, mas estava lá, e haviam viajantes das terras além da floresta. Vi os homenzinhos cabeludos da caverna na floresta comprando e barganhando por pedaços de vidro, e lupas de cristal e de quartzo. Pagavam pelo vidro com moedas de prata – o espólio das depredações da minha enteada, não tenho dúvida. Quando não havia mais o que eles comprarem, o povo da cidade corria às suas casas, voltando com seus cristais da sorte, e, em alguns casos, com pedaços inteiros de vidro.

Eu pensei brevemente em matá-los, mas não o fiz. Enquanto o coração permanecesse pendurado, silencioso, imóvel e frio, na viga do meu quarto, eu estaria segura, e também o povo da floresta, além do povo da cidade. Meu vigésimo-quinto ano veio, e minha enteada tinha comido o fruto envenenado há dois invernos, quando o Príncipe veio ao meu palácio. Ele era alto, muito alto, com frios olhos verdes e a pele morena do povo além das montanhas.

Ele cavalgava com uma pequena comitiva, grande o suficiente para defendê-lo, pequena o suficiente para que outro monarca – eu, no caso – não o encarasse como uma ameaça potencial.

Eu fui prática: pensei na aliança de nossas terras, pensei no Reino se estendendo das florestas até o mar, ao sul; pensei no meu amor louro e barbado, morto há oito anos; e, à noite, fui até o quarto do Príncipe. Eu não sou inocente, embora meu marido anterior, que foi meu rei, tenha sido realmente meu primeiro amante, não importa o que digam. A princípio, o Príncipe pareceu excitado. Ele me fez tirar a roupa e ficar parada em frente à janela aberta, longe do fogo, até minha pele ficar arrepiada e fria como pedra. Então ele pediu que eu me deitasse de costas, com as mão cruzadas sobre meus seios e meus olhos bem abertos – mas fixos nas vigas do teto. Ele me disse para não me mover, e para respirar o mais imperceptivelmente possível. Implorou que eu não dissesse nada. Abriu minhas pernas.

E então entrou em mim.

Quando ele começou a empurrar, senti meus quadris se levantarem, senti-me começar a me encaixar nele, ação por ação, empurrão por empurrão. Gemi. Não pude evitar.

Sua masculinidade escorregou para fora de mim. Eu a busquei e toquei, uma coisa minúscula e escorregadia.

- Por favor – ele disse, suavemente – você não deve se mexer nem falar. Só fique aí nas pedras, tão fria e tão bonita…

Eu tentei, mas ele havia perdido qualquer que fosse a força que o mantinha viril, e, um pouco mais tarde, deixei o quarto do Príncipe, suas maldições e lágrimas ainda ecoando em meus ouvidos.

Ele partiu cedo na manhã seguinte, com todos os seus homens, e eles cavalgaram para dentro da floresta.

Imagino seus quadris agora, enquanto ele cavalgava, um nó de frustração na base da sua masculinidade. Imagino seus lábios pálidos pressionados juntos, tão estreitamente. Então imagino sua pequena tropa cavalgando pela floresta, chegando finalmente ao jazigo de vidro e cristal da minha enteada. Tão pálida. Tão fria. Nua sob o vidro, pouco mais que uma garotinha, e morta. Na minha imaginação, quase posso sentir o repentino enrijecer do membro dele, dentro das calças, e vislumbrar a luxúria que o tomou então, as orações que murmurou sob a respiração, agradecendo sua boa sorte. Eu o imagino negociando com os homenzinhos peludos, oferecendo-lhes ouro e especiarias em troca do adorável cadáver no monte de cristal.

Eles aceitaram o ouro de boa vontade? Ou olharam para aqueles homens em cima dos seus cavalos, com suas espadas afiadas e suas lanças, e perceberam que não tinham alternativa?

Não sei. Eu não estava lá. Não estava espiando. Só posso imaginar…

Mãos, removendo os blocos de vidro e quartzo que cobriam seu corpo frio.

Mãos, gentilmente acariciando seu rosto frio, movendo seu braço frio, regozijando-se de encontrar o corpo ainda fresco e maleável.

Ele a possuiu ali, na frente de todos? Ou carregou-a até um lugar recluso antes de montá-la? Não sei dizer.

Ele removeu o pedaço de maçã da garganta dela? Ou seus olhos se abriram lentamente, enquanto ele estocava dentro do seu corpo? Será que aquela boca se abriu, seus lábios vermelhos se separaram, aqueles dentes amarelos e afiados se fecharam no pescoço dele, enquanto o sangue, que é vida, escorria pela garganta dela abaixo, levando o pedaço de maçã, minha posse, meu veneno?

Eu imagino; não sei.

O que sei é que fui acordada no meio da noite pelo coração dela, batendo e pulsando mais uma vez. Sangue salgado pingou no meu rosto, vindo de cima. Eu me sentei. Minha mão queimava e pulsava como se eu tivesse acertado a base do meu polegar com uma pedra.

Houve uma batida na porta. Tive medo, mas sou uma rainha, e não o demonstrei. Abri a porta.

Primeiro os homens dele entraram em meu aposento e ficaram em volta de mim, com suas espadas afiadas e suas longas lanças. Então ele entrou, e cuspiu no meu rosto.

Finalmente, ela entrou no quarto, como tinha feito logo que me tornei rainha, e ela era uma criança de seis anos. Ela não havia mudado. Não realmente.

Ela puxou o barbante onde o seu coração estava pendurado. Tirou as frutinhas secas, uma a uma; os bulbos de alho, agora ressecados depois de tantos anos.

Então ela pegou o seu pertence, seu coração pulsante – pequeno, não maior do que o de uma cabra ou filhote de urso – enquanto ele pulsava e despejava seu sangue na mão dela.

Suas unhas deviam ser tão afiadas quanto vidro; ela abriu o peito com elas, correndo-as sobre a cicatriz púrpura. Seu peito se escancarou, de repente, aberto e sem sangue. Ela lambeu seu coração uma vez, enquanto o sangue corria pelas suas mãos, e empurrou-o para o fundo do peito.

Eu a vi fazê-lo. Eu a vi fechar a carne do peito mais uma vez. Vi a cicatriz púrpura começar a desaparecer.

Seu príncipe olhou, brevemente constrangido, mas colocou seu braço em volta dela e ficaram lado a lado, esperando.

Ela continuou fria, e a exuberância da morte estava nos seus lábios, mas sua luxúria não foi de modo algum apaziguada.

Eles me disseram que iriam se casar, e que os reinos seriam unidos.

Disseram-me que eu estaria com eles no dia da cerimônia.

Está começando a ficar quente aqui.

Disseram às pessoas coisas ruins sobre mim; um pouco de verdade para dar sabor ao prato, mas misturada com muitas mentiras.

Fui amarrada e presa numa pequena cela de pedra sob o palácio, ficando lá por todo o outono. Hoje eles mandaram me buscar; tiraram-me os farrapos, lavaram-me a sujeira, rasparam-me o cabelo e o púbis, e sujaram minha pele com gordura de ganso.

A neve caía enquanto me carregavam; dois homens em cada braço e em cada perna, completamente exposta, aberta e fria, através da multidão da meia-estação, e me trouxeram para este forno.

Minha enteada ficou lá com o príncipe. Ela me observava na minha indignidade, mas não dizia nada.

Quando me jogaram lá dentro, escarnecendo de mim, vi um floco de neve pousar na sua face branca, e ficar lá sem derreter.

Fecharam a porta do forno atrás de mim. Está esquentando aqui, e lá fora estão cantando, festejando e batendo nos lados do forno.

Ela não ria, zombava ou falava. Não me olhou com desprezo, nem se virou.

Mas olhava para mim, e por um momento me vi refletida em seus olhos.

Não vou gritar. Não vou dar a eles esta satisfação. Terão meu corpo, mas minha alma e minha história são minhas, e vão morrer comigo.

A gordura de ganso começa a derreter e reluzir na minha pele. Eu não devo fazer nenhum som. Não devo mais pensar nisso.

Devo pensar no floco de neve no rosto dela. Penso no seu cabelo negro como carvão, seus lábios vermelhos como sangue, sua pele, branca de neve.

(Neil Gaiman – Fumaça e Espelhos)

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Dias assim

Tem dias insuportáveis
As horas demoram, se alongam, se arrastam

Tem dias assim
sem rosto, sem cor, sem gosto

Tem dias amargos
amarelos, amortecidos, adoecidos

Tem dias que morrem quando nascem
antes do sol despontar no céu

Tem dias que devem ser esquecidos
ignorados noite adentro
onde a tênue luz dos seus olhos
é a única jóia do meu dia

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Silêncio

Hoje sou silêncio,
mas não de tristeza
Sou silêncio de alegria.

Sou sonhos embalados nas estrelas
Sou sorriso no cantinho da boca
Sou olhos fechados vendo o mundo em mim

Hoje, sou silêncio de cura
uma paz comedida
e um abraço apertado

Hoje, sou silêncio de promessas
ansiedade e amor latente
vontade própria e desejo de dormir em seus braços

Hoje, só hoje
sou carinho e ternura
no silêncio do tempo
que ainda há de trazer você pra mim

[acordei Depeche Mode (on)]

Enjoy The Silence

Words like violence
Break the silence
Come crashing in
Into my little world
Painful to me
Pierce right through me
Can’t you understand
Oh my little girl

All I ever wanted
All I ever needed
Is here in my arms
Words are very
Unnecessary
They can only do harm

Vows are spoken
To be broken
Feelings are intense
Words are trivial
Pleasures remain
So does the pain
Words are meaningless
And forgettable

All I ever wanted
All I ever needed
Is here in my arms
Words are very
Unnecessary
They can only do harm

All I ever wanted
All I ever needed
Is here in my arms
Words are very
Unnecessary
They can only do harm

All I ever wanted
All I ever needed
Is here in my arms
Words are very
Unnecessary
They can only do harm

Enjoy the silence…

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